Sustentabilidade posta em prática – Por Patricia Meirelles, Andrea Assami e Celso Sekiguchi
Por Patricia Meirelles, Andrea Assami e Celso Sekiguchi
Vivemos em um século de novos e cada vez mais complexos desafios de várias naturezas.
A dinâmica que se estabeleceu no mundo atual está nos levando a buscar diferentes meios para nos relacionarmos comercial, social e financeiramente com o meio ambiente, com os nossos modos de produção e, até mesmo, com relação aos nossos princípios e valores individuais e coletivos. Estas novas necessidades, depois de décadas sendo negligenciadas, tem se tornado mais recorrentes, e felizmente, passaram a ser mais bem compreendidas em termos de importância, o que acaba por conquistar maior atenção e comprometimento de todos os segmentos da sociedade.
Em função da violência, do distanciamento entre indivíduos e culturas, do impacto dos modelos de produção e industrialização sobre o meio ambiente e sobre as sociedades, das relações comerciais cada vez mais desiguais, da dificuldade de acesso de grande parte da população aos mercados de trabalho, entre outros fatores, temos, hoje, o grande desafio de resgatar antigos valores, transformando-os novamente em potencialidades.
Essa transformação já começa a acontecer em diferentes esferas da sociedade, e na gestão empresarial ela vem sendo amplamente discutida e cada vez mais implementada. O momento em que as empresas se encontram é de converter inquietações de longa data em ações práticas que visem atender os três pilares da sustentabilidade – social, ambiental e econômico – relacionando-os com outras esferas como a da ética (governança), política (relação com os poderes constituídos) e a esfera cultural.
O desenvolvimento de modelos de gestão mais sustentáveis e que beneficiem todos os envolvidos na cadeia é um dos caminhos para impulsionar essa transformação. Para que se aplique este modelo, alguns princípios e práticas devem ser discutidos e implementados nas organizações.
- Sustentabilidade ao longo do ciclo de vida de todos os seus produtos e serviços;
- Incorporação de práticas sócio-ambientalmente responsáveis em todas as atividades da empresa e de sua cadeia de fornecedores;
- Troca de conhecimento e estabelecimento de parcerias para aprimoramento e sucesso da gestão empresarial;
- Mudanças comportamentais em relação ao consumo;
- Relações interpessoais mais equilibradas;
- Gestão de recursos humanos de modo transparente, horizontal e cada vez mais participativa.
A adoção destas práticas na empresa beneficia funcionários, fornecedores, parceiros, meio ambiente e a sociedade (os “stakeholders”, ou suas partes interessadas) como um todo. No entanto, há que se ficar atento para que essas diretrizes não componham apenas as políticas, normas ou procedimentos da empresa, mas que sejam realmente incorporadas aos seus processos.
Para que isso aconteça, é necessário que os primeiros a serem sensibilizados sejam os colaboradores, além dos dirigentes das empresas, pois estes serão os principais responsáveis para que as ações se concretizem.
Com o envolvimento de toda a equipe e dos gestores da empresas os impactos positivos da sustentabilidade começam a aparecer. Alguns destes impactos foram destacados a seguir:
- Equipe satisfeita, mais produtiva e com maior comprometimento com o desenvolvimento da empresa e da sociedade, já que as relações passam a ser mais cooperativas e menos competitivas, levando ao compartilhamento de soluções;
- Empresa, clientes e fornecedores dividem os mesmos princípios e adotam práticas similares, gerando um melhor relacionamento e maior oportunidade de negociação, fortalecendo suas imagens junto aos clientes e a toda a comunidade;
- Transparência nas relações com definição clara de papéis e responsabilidades, potencialização e fomento ao desenvolvimento de habilidades individuais e do grupo, possibilitando um incentivo à gestão de recursos humanos de maneira mais horizontal e levando à atração e retenção de talentos nas organizações;
- Oportunidade de conhecer a cultura e a realidade dos fornecedores, contribuindo para a humanização das relações comerciais;
- Multiplicação de conhecimento e troca de informações entre parceiros, fornecedores e funcionários fazem com que a prática da sustentabilidade se propague, cada vez mais, ampliando os benefícios para toda a cadeia produtiva;
- Diálogo aberto com todos os “stakeholders”;
- Melhoria da imagem da empresa, através de práticas de sustentabilidade cada vez mais conscientes e consistentes, contribuindo para a conquista de novos mercados e clientes mais fidelizados aos seus produtos e serviços;
- Redução dos custos de produção e aumento das receitas e do valor de mercado, reduzindo passivos, riscos socioambientais, trabalhistas, de saúde e segurança tanto dos empregados próprios, como dos demais parceiros de negócios;
- Adoção da ecoeficiência em todos os processos da empresa, diminuindo custos, beneficiando o meio ambiente e, consequentemente, a sociedade em geral;
- Inclusão social, a recusa ao trabalho infantil, o respeito às diferenças culturais, étnicas e sociais, levando à diminuição da desigualdade, violência e pressão social causada por esses fatores, beneficiando toda a sociedade;
- Disseminação das práticas de sustentabilidade para todos os setores da empresa e para todos os indivíduos envolvidos no processo, possibilitando uma abordagem sistêmica para o tratamento dessas questões cada vez mais abrangentes e complexas;
- Desenvolvimento do sentimento de solidariedade, incentivando a prática da cidadania.
Apesar de estar cada vez mais presente nas discussões de todos os setores, a aplicação dos princípios da sustentabilidade ainda encontra muitas barreiras.
A sustentabilidade nada mais é do que o alcance do equilíbrio entre pessoas, meio ambiente e economia. No entanto, as práticas adotadas pelo capitalismo nas últimas décadas provocaram este desequilíbrio uma vez que o individualismo superou o interesse coletivo. O que temos visto são empresas que visam o lucro acima do bem-estar da sociedade e do meio ambiente e dos próprios funcionários que são os principais responsáveis pela geração deste lucro.
Estes últimos são incentivados a ter o mesmo comportamento individualista que a sua corporação adota sem valorizar o trabalho em equipe, as parcerias e a cooperação. Esse comportamento gera um círculo vicioso de pessoas que conseguem visualizar cada vez menos a importância do pensamento sistêmico, da colaboração e da troca de conhecimento e informação para o benefício mútuo.
A falta de consciência de que nossas ações impactam diretamente a sociedade e o meio ambiente é o principal fator responsável por impedir que o conceito de sustentabilidade seja posto em prática.
Sem a interiorização da necessidade de se alinhar o pensamento linear e o pensamento sistêmico tanto no âmbito individual como coletivo, torna-se mais difícil perceber que os seres humanos e suas sociedades compõem essa totalidade na qual se interrelacionam a natureza, diferentes culturas e diferentes classes sociais, que é a base para que alcancemos a sustentabilidade.
Os esforços da sociedade e dos mercados que buscam uma sustentabilidade cada vez maior, se voltam para concretizar e viabilizar tanto os seus objetivos (meios), como os resultados (fins) decorrentes desse processo de transformação das relações, possibilitando a aplicação de todos esses conceitos, assim como demonstrando na prática e para todos os públicos que novas formas de gestão responsável, são necessárias e aplicáveis a todos os tipos e em todos os níveis das organizações, que desejarem se manter vivas e atuantes.
Patrícia Meirelles e Andrea Assami são Sócias-Diretoras da Cacauí – Eventos com Responsabilidade Socioambiental e Celso Sekiguchi é consultor sênior em Sustentabilidade da Cacauí (www.cacaui.com.br).



